Fenômeno estranho: as ruas dos bairros mais agitadas do que as do centro; as pessoas afoitas para chegar em casa no meio da tarde; os poucos motoristas de ônibus a trabalho aproveitam as avenidas vazias e correm, para terminar as viagens antes do previsto e poder assistir alguns minutos da partida no ponto final. O país para. Estamos em tempo de Copa do Mundo e o time do Brasil entra em campo pela primeira vez em uma terça-feira à tarde, no horário de Brasília.
Futebol é a paixão nacional, dizem. A mim, nunca apeteceu. De Copas, lembro-me apenas da ocorrida em 1994 – a do tetra –, mas apenas porque eu era criança e ocorre das lembranças dos nossos tempos de infância possuírem cores mais mágicas.
Enquanto às pessoas estão em suas casas, ou bares, ou no calçadão da rua XV assistindo o jogo, o resto da cidade fica praticamente vazio: algumas pessoas, desinteressadas pelo desempenho dos jogadores brasileiros, sentam-se pelos bancos das praças como se estivessem a esperar algo ou alguém e poucos carros cortam as ruas. Em que outra tarde de um dia útil seria possível ficar parado no meio da avenida Marechal Deodoro sem ser atropelado? Apenas quando a Seleção joga.
Chuva forte ou fina, à tarde, de manhã ou à noite – para ajudar a dormir. Alguém se lembra qual foi a última vez que não choveu por um dia inteiro? Cada lugar, objeto ou pessoa, tudo está úmido nesta cidade.
Placas, faixas, semáforos. Sinais que indicam para podemos ou não ir, se é possível parar ou não, mas também para se grudar adesivos ou como objetos em uma cena cotidiana.
Não conheço muito São Paulo, mas me parece que é raro vê-la assim, tão pequena, esvaziada, como que em uma maquete. A maior cidade do país, comumente, nos é mostrada como caótica, repleta de carros e pessoas circulando pelas ruas e calçadas. Mas, às vezes, ela diminui um pouco o seu ritmo, como nesta cena na Avenida Paulista, às 19h30 de um sábado.
Em algum momento chega a hora de dizer adeus. Os namorados se despedem: cada para seu lado e, talvez, no dia seguinte, eles se encontrem novamente.
Durante a semana todos corremos de um lado para o outro, em meio ao concreto da “cidade”, e no final de semana alguns podem descansar. Ultimamente tenho frequentado os parques da cidade, pois muitos curitibanos vão a estes espaços em busca de lazer. Lá praticam exercícios, passeiam sozinhos ou acompanhados, brincam como crianças ou apenas buscam algum tipo de contato com a natureza, mesmo que esta seja construída.
De dentro do ônibus
Andar de ônibus é constitutivo de caráter, como diz meu amigo José Lazaro. Passar horas do seu dia, todos os dias, dentro de um ônibus lhe dá tempo para ler muitos livros, para refletir e observar o mundo a sua volta. Olhar para fora, a partir de um ônibus em tour, é deixar de perceber a cidade apenas como uma via de passagem, um espaço/tempo perdido entre o seu ponto de partida e o seu destino, e experimentá-la.
Algumas coisas constituem nosso caráter. Enquanto uns observam o mundo lá fora, outros olham para a nuca do passageiro do banco da frente.
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