Clarice Lispector nos convida, em Mudar, a experimentar a mudança lenta e simples de nossas atitudes e ações diárias.
E, enquanto escrevo este texto, descubro que uma publicação brasileira recente traz a comprovação científica de que mudar a maneira de pensar é um remédio contra males que atingem os seres humanos. O estudo, comprovado por cientistas de universidades públicas e particulares dos Estados Unidos e também pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo e pela Universidade Federal de São Paulo, apresenta os resultados benéficos da mudança na maneira de pensar no ser humano. Não seria eu a discordar dos cientistas.
Foi uma mudança involuntária : há algumas semanas tive a rotina alterada e meus horários foram modificados. Eu não gostei da mudança, mas seria por pouco tempo. Por alguns dias, passei a sair de casa perto das oito horas da manhã, infinitamente mais tarde que o habitual horário das seis e meia, quando o sol ainda não acordou, porque estamos no inverno. Os veículos vão saindo do condomínio em silenciosa procissão até a portaria, onde se separam em ruas divergentes levando em seu interior filhos para a escola, esposas, maridos, nós mesmos. Voltamos no fim do dia, no sentido inverso à procissão matinal. Com meu novo horário, chegar à portaria significou uma surpresa : do lado de fora dos muros com cerca elétrica, vários carros, motos, bicicletas e pedestres aguardam a hora de poder entrar no condomínio. Há horário certo para isso acontecer e eles são operários das obras. São pedreiros, carpinteiros, encanadores que aguardam a saída dos moradores acontecer enquanto os ponteiros do relógio dão a autorização para entrar. No fim do dia, e muitos tijolos e telhas depois, quando voltamos para casa, não os vemos. Já foram embora, também no horário que precisam cumprir. É um ritual diário e silencioso … todos sabem o seu lugar, todos cumprem o seu papel. Para nós, moradores, há regras. Para os operários, também.
Na primeira manhã dos dias da nova rotina, veio-me à mente a música que, em anos de universidade e idealismo, parecia soar como um convite à reflexão sobre a igualdade. Interpretada por diferentes cantores, Cidadão, com letra e música de Lúcio Barbosa, era o desabafo de um operário da construção civil que, mesmo tendo convivido com o luxo das construções enquanto as executava, não as habitava, tampouco era convidado a freqüentá-las quando estavam concluídas. E perguntava aos passantes se estavam vendo aquele edifício para o qual ele apontava, dizendo que trabalhou lá !
Como sugeriu Clarice Lispector, mudei a minha rotina. E acabei encontrando aqueles que seguem o que diz a letra da canção que, mais de duas décadas depois, continua sendo interpretada pelas ruas do país.
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Phillip Toledano é um jovem fotógrafo britânico, filho de pai americano e mãe francesa, que mora e trabalha em Nova York. Aos onze anos de idade convenceu os pais a lhe darem a primeira câmera fotográfica e não parou mais de fotografar. Hoje faz trabalhos para, entre outros, o jornal The New York Times e a revista The New Yorker. Para ele, a fotografia deve ser como uma frase incompleta e deve deixar espaço para interrogações.
Já escrevi neste mesmo espaço sobre um outro fotógrafo (Em Preto e Branco, publicado em 30/12/2009, sobre o fotógrafo britânico Michael Kenna). Tenho fascínio e paixão por fotografia, apesar da falta de talento para fotografar. E este meu fascínio me impulsiona a buscar na fotografia momentos de reflexão. Admiro a capacidade de fotógrafos de colocarem num pedaço de papel impressões, sentimentos e até sensações. E Phillip Toledano me impressionou ainda mais ao lançar o livro Days With My Father que nada mais é que o site do mesmo nome, que ele havia criado sobre o seu pai, agora transformado em livro. É uma coletânea de fotos feitas por ele durante os últimos três anos da vida do pai, desde o falecimento da mãe, em setembro de 2006. Embora não fosse portador de doença degenerativa, o pai de Phillip sofria de perda da memória recente e morreu aos 99 anos de idade.
A capa do livro foi escolhida pelos visitantes do site, entre as várias fotografias lá expostas. Além da qualidade plástica do trabalho talentoso do fotógrafo, a simplicidade retratada é de uma beleza inquestionável. Textos curtos foram inseridos ao lado das fotos do livro. Ao invés de simples legendas, as palavras podem ser traduzidas como declarações de amor de um ao outro. Phillip narra momentos da vida do pai e conta coisas que ele costumava falar durante os três anos em que conviveram. E ouve do pai, coisas que ele nunca tinha dito para o filho antes … Phillip declara ao fim do livro estar feliz por não ter deixado de dizer nada do que gostaria de ter dito ao pai, antes de ele morrer !
Li o livro inúmeras vezes e vi em suas fotos retratos de momentos que quase todos nós passamos com os nossos pais. Lembrei que eles um dia também foram filhos e voltaram a sê-los na velhice, quando se tornaram dependentes pela senilidade. Incrível o poder da fotografia, que nos faz rever momentos dos quais não havíamos desfrutado completamente ou dos quais já havíamos nos esquecido.
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A revista semanal americana The New Yorker publicou no fim da década de 1990 um artigo interessante intitulado The Art of Dinning Out, ou A Arte de Jantar Fora. No texto, o autor descreve o ritual que os freqüentadores dos restaurantes finos da cidade de Nova York seguem para ir jantar. Trata-se de muito mais que fazer uma refeição. É um evento social que começa com a preparação para chegar ao local. Entre figurino e motoristas, os comensais não economizam, já que o evento serve muito mais para serem vistos do que propriamente para satisfazer uma das necessidades humanas vitais. Artistas da época, como a mais que vaidosa atriz britânica Joan Collins, circulam entre os demais clientes, na certeza de que estão sendo admirados. O menu de alguns dos charmosos restaurantes da cidade também é citado no artigo, uma vez que o autor freqüentou os lugares para poder escrever o texto.
Na semana em que se comemorou o aniversário de 35 anos da neve em Curitiba, uma feliz coincidência me deu a oportunidade de reviver aquele momento mágico da minha infância. Uma semana de férias durante o período que foi, até agora, o de dias mais frios do ano na cidade. Aproveitei a oportunidade para realizar então, por conta própria, o evento conhecido em grandes cidades do Brasil, a Restaurant Week. Durante uma semana, freqüentei diferentes restaurantes da cidade.
Foi uma semana peculiar. Acompanhada de uma amizade antiga, fui a lugares que acreditava terem mudado, outros que não conhecia. Lembrei-me do artigo da revista americana : há lugares onde as pessoas vão para serem vistas. Mas o que marcou a semana foi a identidade de cada lugar. Descobri que há um inquestionável ar europeu no restaurante onde se pode almoçar com a lareira acesa enquanto lá fora a temperatura era ainda mais baixa por causa da chuva da semana toda. Há outro charmoso restaurante com ar rústico em que o serviço é excelente e atenciosos garçons nos fazem sentir exclusivos enquanto degustamos um prato executivo. Numa noite fomos a uma pizzaria tradicional, onde converso freqüentemente com o gerente, e perguntei se o movimento havia crescido com o frio. Ao que ele respondeu que o que havia aumentado tinha sido o delivery. Na impossível missão de substituir o termo em inglês pelo nacionalmente conhecido similar em português, fiquei pensando por que as pessoas não saem de casa em uma noite fria para jantar, mas vão para o Hemisfério Norte ver a neve …
Voltei aonde não ia há tempos, ou por falta de oportunidade ou pela natural curiosidade que nos faz conhecer novos lugares. E a minha semana foi muito mais que uma experiência gastronômica e social. Foi também um exercício de memória e um reviver de momentos. Restaurantes onde paixões foram reveladas, declarações foram feiras, onde surpresas aconteceram, e restaurantes que não existem mais…
Percebi então que, mais que almoçar, jantar e serem vistas, as pessoas vão a restaurantes também pela lembrança de momentos bons.
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Horário do almoço. Vi quando a esposa, uma jovem bonita de cabelos loiros, mostrou para o marido o que tinha acabado de pegar, dizendo que aquilo era lindo e dirigindo-se a ele de maneira tão carinhosa. Grávida, e com um menino pequeno dentro do carrinho, ela ia colocando as novas aquisições ao lado dele. Marido e esposa sorriam.
Depois de presenciar aquela cena, tomei meu caminho de volta. Afinal, meu horário de almoço quase inexiste fora do ambiente profissional. Foi uma exceção, já que o lado materno me fez ir até em casa verificar a temperatura de um filho febril. Enfim, tudo estava sob controle e eu voltaria para o trabalho.
Pensei no quão difícil e cansativo tinha sido meu dia, até então : madrugada no hospital, preço absurdo dos remédios que precisei comprar, ir direto para o trabalho sem ter dormido, um calor intenso de fevereiro e, dentro do carro, no horário do almoço, o que já é insuportável, torna-se quase letal ! Havia ainda a segunda parte do longo dia, problemas que viriam, contas a pagar, e pressões a receber.
A cena do casal que presenciei no horário do almoço voltava à minha mente o tempo todo. Pensei naquilo que vemos e ouvimos com freqüência, na mídia, à nossa volta, nas revistas, nas letras das canções que nos embalam … Um grande amor pode acontecer. Uma família feliz, daquelas em que todos são bonitos e passam o dia sorrindo, mesmo quando estão no supermercado vendo preços de produtos que não querem, mas que precisam comprar, pode existir. São famílias felizes ou que enfrentam o dia a dia de uma maneira mais leve que a grande maioria dos mortais, aceitando o que lhes acontece, enfrentando juntos as dificuldades, talvez reclamando menos, talvez apoiando-se mais.
Fim do dia. Problemas resolvidos, outros surgindo, trânsito, preocupações e decisões povoando a mente no início da terceira jornada. Onde estaria o casal agora ? Chegando em casa, talvez. Como ela seria ? Percebi, então, que a frase dita pela esposa ao marido surgiu por minha causa.
Naquele dia, no horário de almoço, ao sair da portaria do condomínio fechado onde moro, encontrei o casal selecionando material da lixeira para colocar no seu carrinho, onde estava o filho pequeno. Eles são catadores. Abri o porta-malas para entregar coisas que eu tinha separado e que já não me são úteis, mas seriam para aquela família. Eram várias caixas, algumas com brinquedos. E foi ao abrir uma delas que a esposa disse a frase que dá título a este texto.
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Obesidade e fome são contrapontos da sociedade contemporânea que, gostaríamos, tivessem ficado no século XX. Mas nos acompanharam na entrada do novo século.
Nações ricas, com população obesa por causa da oferta de comida e também pela ingestão de alimentos errados e hábitos de vida prejudiciais. Países pobres, onde miseráveis morrem de fome. E uma grande parte da população mundial está entre os que podem comprar comida, mas não querem ficar acima do peso.
Tenho o hábito de refletir de diferentes maneiras sobre um mesmo assunto e também o de convidar à reflexão aqueles que, acredito, vêm os fatos sob apenas uma perspectiva. É um exercício interessante e enriquecedor. Há alguns dias, conversava com uma pessoa amiga sobre o livro As Mulheres Francesas Não Engordam (de Mireille Guiliano, editora Campus). O livro sustenta o fato de que os franceses, embora comam muito e tenham uma culinária riquíssima, não consomem alimentos processados, tampouco os que não têm ligação com a natureza. Os franceses bebem vinho e comem pão e queijo. Comem com prazer. Não são adeptos de dietas, nem lançaram alguma, como os americanos têm feito há anos. Finalmente, não são obcecados por atividade física em centros de ginástica (fitness centers ou academias) em ambientes fechados como os brasileiros.
A partir destas ponderações comecei a pensar sobre as minhas atitudes para ter mais saúde e perder peso. Aí entra a orientação de um primeiro profissional que pede que registremos as nossas atividades e ingestão de alimentos como em um diário. Como que em um diário, mas apenas mentalmente, comparei a minha rotina com a de uma pessoa que também mora em cidade grande, por exemplo, em Paris.
Deixando de lado os hábitos alimentares dos franceses, ampliei meu raciocínio para itens da vida de qualquer cidadão, como transporte e segurança. Tanto em Paris, como em outras grandes e médias cidades do continente europeu, o transporte público é eficiente. As pessoas utilizam os ônibus, trens, bondes e metrô porque não há espaço para tantos carros nas estreitas ruas históricas das cidades mais antigas. Por isso, pode haver congestionamentos nas áreas suburbanas, onde as famílias moram, pela manhã e no fim da tarde. Isso até deixarem os carros nos estacionamentos das estações de metrô e de trem. Então seguem a pé, descem e sobem escadas e escadas rolantes e, ao descer do transporte público, há ainda alguns quarteirões para caminhar até o trabalho. No fim do dia, tudo novamente no caminho de volta.
O curto inverno europeu também convida os moradores das grandes e pequenas cidades às caminhadas pela vizinhança após o jantar, hábito este quase em extinção em tantas outras partes do mundo, onde a prática da caminhada foi oficializada como esporte. Mas eles o fazem porque é seguro sair à noite a pé.
Eu não utilizo o transporte público na minha cidade, saindo cedo de casa direto para o carro até a porta do trabalho. Também não saio para caminhar à noite, depois do jantar, porque não é seguro.
Para perder peso, combater a obesidade e manter a forma física temos recursos : tratamentos médicos e nutricionais, atividades físicas, re-educação alimentar, mesmo quando há herança genética desfavorável. Mas é curioso concluir que o respeito por parte das instituições públicas e autoridades pode, também, contribuir para uma sociedade mais saudável.
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Um tema delicado tem sido o foco principal da vida do ex-vendedor de seguros australiano, Donald Richie. Hoje com 82 anos de idade, ele conta que há 50 ajuda a convencer pessoas a não se matarem.
Donald Richie concedeu uma das suas poucas entrevistas para a BBC, rede de notícias de rádio, TV e internet da Inglaterra. Ele mora nos arredores de Sydney, na Austrália, numa região que oferece uma vista privilegiada para o mar, mas que também atrai suicidas por ser próxima de um alto penhasco. Equipado apenas com seu binóculo e um papo tranqüilo, monitora o movimento no penhasco há cinco décadas.
Ele conta que começou observando pessoas que iam até o lugar para apreciar a paisagem, ver o mar, contemplar a natureza. Mas sempre que percebia alguém muito mais pensativo e contemplativo que o cenário exigia ou se esta pessoa tivesse ultrapassado as cercas que existem no lugar, saía de casa e ia lá conversar com a pessoa. Com simplicidade, ele diz durante a entrevista que apenas cumprimentava a pessoa, começando uma conversa amigável e que, muitas vezes, conseguia convencê-la a mudar de idéia. Uma de suas estratégias mais eficazes era a de convidar a pessoa para tomar um café na sua casa.
Nestes 50 anos, o aposentado conta com um total de 401 pessoas que, segundo ele, resolveram não se matar. As autoridades locais reconhecem um total de 161 oficialmente. O número não importa e sim o motivo pelo qual elas deixaram de cometer suicídio : a abordagem por parte do aposentado. A mídia australiana o apelidou de “anjo da guarda” e a sociedade daquele país o admira.
Pessoas que ele ajudou a convencer a não se matar manifestam seu agradecimento e carinho com cartas, pinturas e presentes deixados na sua porta ao longo dos anos. Mas o prudente “anjo da guarda” evita chamar a atenção por considerar o suicídio um tema delicado e, quando discutido, pode inspirar suicidas.
Com o tempo, devido à idade e a problemas de saúde, Donald Richie deixou de ir até o penhasco, limitando-se hoje a observar pelo binóculo e avisar a polícia caso suspeite de possíveis suicidas. Aqueles que decidiram não morrer são gratos ao senhor de 82 anos, este sim, com idade já tão próxima da morte, mas que continua vivo e gostaria que os que ele nem conhece também continuassem. Quem não morreu tornou famoso o “anjo da guarda” australiano.
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Como na cena em que o coelho corre com o relógio à mão, no desenho animado Alice no País das Maravilhas, que eu vi muitas vezes ainda criança, a frase repetida por ele pode ser usada todos os dias por todos nós.
Há algum tempo postei um texto sobre o movimento Slow Food (A Gente não quer só Comida – 7 out/2009, Por Pia Heart, em Decolagem), que acabou dando origem a outros como os slow travellers (viajantes lentos) e demais grupos de pessoas ao redor do planeta, que optaram por um estilo de vida inverso ao que nos é imposto hoje. Sem pressa, com chance de aproveitar melhor cada momento do dia, da refeição, do passeio, estas pessoas desfrutam de mais prazeres que aquelas que praticam as mesmas atividades, porém apressadamente.
Tenho pensado sobre isso diariamente, principalmente no trânsito, quando vejo motoristas apressados, logo cedo indo para o trabalho. Mas no fim do dia, a pressa também os acompanha, quando deveriam, a caminho de casa, estar mais relaxados. A pressa de ir e vir deu origem ao que conhecemos como hora do rush, ou hora da pressa. Temos pressa de chegar ao compromisso, porque precisamos cumprir o horário e temos pressa de voltar para casa porque ela e o nosso lar.
O que me faz escrever sobre a pressa é o que me aconteceu no mercado, esta semana, e também na semana passada e há duas semanas, e há três meses … acontece todas as vezes, no caixa. O funcionário ou a funcionária até me cumprimenta e então começa a passar os produtos no leitor ótico. E o faz com pressa, muita pressa ! A ponto de não perceber que há artigos que não podem ser quebrados, como um pacote de massa, que sempre escolho com cuidado na prateleira. E, apressadamente, termina de passar o último produto, fala o valor total da compra e me ajuda a terminar de embalar tudo. E, quando olho para trás, noto, muitas vezes, que não há outro cliente depois de mim. Esta e a parte da história que nunca consigo entender. Se o funcionário recebe o seu pagamento de acordo com a sua função e pelo cumprimento do seu horário de trabalho, por que a pressa em terminar ? Talvez o caixa pense que o cliente esteja com pressa. Ou talvez apenas seja o hábito, o ambiente onde trabalham, a maior parte do dia há filas nos caixas, enfim, deve haver um ou mais motivos para a pressa do caixa de mercado.
Há algum tempo, li a notícia de uma funcionária de mercado nos Estados Unidos, que é recordista em passar os produtos, a uma velocidade jamais vista. Ganhou fama e o reconhecimento dos colegas e do empregador. Mas continuou cumprindo o mesmo horário de trabalho, porém agora é famosa.
É estranha a relação das pessoas com a pressa. Eu mesma não entendo porque somos assim, já que muitas vezes me flagro agindo da mesma contagiante maneira. Mas deve haver uma explicação. Se for a pressa de chegar a um lugar que queremos, de voltar para casa, de encontrar uma pessoa amada, então está explicado.
Uma vez li um anúncio da companhia aérea British Airways, da Inglaterra, em uma revista que mostrava a foto de crianças com uniformes escolares correndo na rua. A frase, sob a foto dizia : É uma lei do universo : As crianças caminham até a escola, as crianças correm para casa.
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Sem precisar fazer qualquer previsão, existem realidades inquestionáveis que mostram os efeitos do aquecimento global: já não se podem negar fatos como a redução de água, as mudanças de estação climática e suas conseqüências para a agricultura. Daí a necessidade de se definir, por exemplo, programas para o tratamento e para a coleta de água ou para a preparação de novos cultivos em função das alterações dos períodos de chuvas.
Com este raciocínio simples, o jornal El País, da Espanha, apresenta uma matéria sob o título “As mudanças climáticas fomentarão as ditaduras”. A matéria, publicada na mesma semana em que se comemora o Dia Mundial da Água, apresenta depoimentos de conhecedores do tema. Universidades européias e asiáticas advertem sobre as conseqüências políticas do aquecimento global e seus efeitos na produção de alimentos e água.
Segundo o co-autor e editor do livro Aquecimento Global e Mudança Climática, Antonio Marquina, “a mudança climática provocará o profundo empobrecimento de muitas regiões do planeta e fomentará a aparição de Estados falidos e regimes autoritários.”
E eu acredito ser esta uma questão ponderável. O mundo já enfrentou conflitos por outras riquezas em várias épocas da história mundial. Mas a água, até então, era considerada um recurso, não uma riqueza …
Os conflitos provocados pela escassez de água e de alimentos e os fluxos migratórios decorrentes dos problemas ambientais afetarão os sistemas políticos em médio prazo, estimando o limite temporal no ano de 2050. Haverá países, principalmente na Ásia e no Oriente Próximo, que reforçarão ainda mais os sistemas autoritários para sobreviver. Outros países, os mais pobres, não poderão enfrentar os desastres provocados pela mudança climática e se converterão em Estados falidos.
Longe de ser alarmista, o livro lançado esta semana em Madri é resultado de investigação desenvolvida pela rede de universidades Europa-Ásia (ASEM), e propõe uma visão de cenários possíveis em função da situação ambiental e suas perspectivas de evolução.
Tenho interesse crescente por estes temas. E quando se coloca um prazo para que um recurso acabe ou uma data para que uma catástrofe se torne realidade além do papel, meu interesse aumenta.
E concordo com o fato de o livro, mesmo não sendo alarmista, ser um alerta.
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De fraldas descartáveis ecológicas a residências sustentavelmente conscientes, o mundo experimentou nos últimos anos uma avalanche de idéias para garantir que gerações pós-criadores destas idéias pudessem usufruir o mesmo que aqueles que as criaram.
O mundo não está a salvo. O planeta nunca sofreu tanto. Mas iniciativas louváveis têm feito com que muito possa ser garantido para gerações futuras. São pessoas, empresas, instituições e governos preocupados e comprometidos. Jamais a imaginação humana foi tão abrangente, nem tanto foi feito em tão pouco tempo, como neste início de século. Culpar os antepassados pelo que de ruim aconteceu até agora, esqueçamo-nos !
Jornais, revistas, portais eletrônicos, empresas … todos criaram uma seção ou departamento chamado de sustentabilidade. Lá, idéias, projetos e ações são divulgados, incentivados e adotados.
Porém, ao mesmo tempo em que aplaudimos e incorporamos na nossa vida as iniciativas de preservação e conservação, algumas atitudes tem feito com que o tempo dispendido com ações conscientes seja muito grande.
Nos escritórios, extinguiram-se as lixeiras sob as mesas. Agora, há apenas as lixeiras classificatórias, para que todos direcionem o lixo para o lugar certo, de acordo com a classificação. As lâmpadas são apagadas mais cedo e muitas estão desligadas e passam o dia como meras espectadoras do corre-corre dos funcionários. Tornou-se praticamente automático jogarmos o plástico numa lixeira e o papel em outra. Nossos filhos pequenos voltam da escola com lições moralizadoras sobre os seus pais destruindo o planeta e sobre como devemos todos, contribuir.
Mas, em nome da preservação, alguns exageros tem acontecido : na fila do caixa no mercado, as sacolas de tecido ficam ameaçadoramente me encarando e eu, mesmo já tendo a minha, da qual faço uso contínuo, sinto-me desconfortável se preciso completar o empacotamento com uma sacola de plástico. Ao lado do meu carro no estacionamento, sempre há um com adesivo do Greenpeace ou do WWF. Ao mesmo tempo em que, à minha frente, no trânsito, alguém joga pela janela uma lata de metal ou uma embalagem de sorvete, atitudes que me deixam indignada, leio um outdoor sobre a separação de lixo e outro sobre o excesso de poluição e seus malefícios.
No fim do dia, depois de agir de maneira ecologicamente consciente e de ter contribuído para o não desperdício, para a não extinção e para a preservação, e ainda tendo separado o lixo, chego em casa cansada, não só do trabalho e do trânsito, mas também do excesso de exigências.
Acho que estamos todos cansados … nós e o planeta Terra.
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“Eu gostava demais da alegria que você me proporcionava e da felicidade que me fazia sentir. Sim, eu amei você de verdade, mas chegou a hora dizer adeus. Eu não preciso mais de você ! ”
Na última semana de fevereiro, a rádio BBC da Inglaterra, transmitiu aos ouvintes a carta que a adolescente Hannah Meredith, natural do País de Gales, escreveu, dois meses antes de morrer de overdose por heroína, pouco antes de completar 18 anos de idade.
A história da adolescente britânica não é diferente das demais histórias de dependentes de drogas. Ela diz na carta que começou pegando dinheiro emprestado, que nunca devolveu, para poder comprar heroína, e que depois começou a roubar dinheiro da própria família. Tornou-se dependente, passou a ser rotulada na rua e a ser ignorada por muitos. Em suas próprias palavras, Hannah diz que a heroína a fez “sentir-se um lixo com os braços picados por agulhas”. E que não sabia por que começou a usar a droga.
Nada diferente dos milhares de casos sobre os quais lemos e ouvimos diariamente no nosso país, o Brasil. Mas o que chama a atenção no fato é que a carta não foi endereçada a alguém da família, nem a amigos, tampouco foi uma carta de despedida pré-suicídio. Ao contrário de tantas outras cartas que suicidas costumam deixar, esta era a declaração de um recomeço. É a carta de uma vítima ao próprio algoz. Ela escreve despedindo-se da heroína e e dizendo “agora não preciso mais de você e vou provar para todo mundo que sou capaz de ficar longe de você, vou fazer uma faculdade, conseguir um emprego e comprar um carro.”
Surpreendeu-me o teor da carta, não por ela querer deixar de usar a droga. Afinal, muitos dependentes também desejam conseguir. Mas por ela acreditar, como em suas palavras ficou claro, que “eu posso controlar você e você não pode me controlar”. Uma menina recém saída da infância, que começou a usar heroína sem saber o porquê e que acreditou, assim como qualquer adolescente, ter “força de vontade suficiente para tirar você da minha vida”.
Optei por transcrever os trechos em aspas, que são as palavras de Hannah, e que mostram o quão inteligente a adolescente era ao se dirigir de forma objetiva e decidida àquela que lhe causou tanto mal. Mas a mesma inteligência que usou para escrever a carta não a impediu de começar a usar algo que ela não sabia por que motivo havia começado.
Foi uma inteligência desperdiçada de alguém que tinha família e planos como qualquer outro adolescente. Afinal, entre aqueles que nos rodeiam, a maioria planeja o mesmo que ela : cursar uma faculdade, conseguir um emprego, comprar um carro. Ela termina a carta despedindo-se da heroína e dizendo que “a família vem em primeiro lugar”.
Curiosa a relação das palavras : heroína, uma palavra atribuída a quem consegue feitos heróicos, de superação. Afastando-se da heroína, a droga, Hannah poderia tornar-se uma heroína, pela sua própria superação.
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