Clarice Lispector nos convida, em Mudar, a experimentar a mudança lenta e simples de nossas atitudes e ações diárias.
E, enquanto escrevo este texto, descubro que uma publicação brasileira recente traz a comprovação científica de que mudar a maneira de pensar é um remédio contra males que atingem os seres humanos. O estudo, comprovado por cientistas de universidades públicas e particulares dos Estados Unidos e também pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo e pela Universidade Federal de São Paulo, apresenta os resultados benéficos da mudança na maneira de pensar no ser humano. Não seria eu a discordar dos cientistas.
Foi uma mudança involuntária : há algumas semanas tive a rotina alterada e meus horários foram modificados. Eu não gostei da mudança, mas seria por pouco tempo. Por alguns dias, passei a sair de casa perto das oito horas da manhã, infinitamente mais tarde que o habitual horário das seis e meia, quando o sol ainda não acordou, porque estamos no inverno. Os veículos vão saindo do condomínio em silenciosa procissão até a portaria, onde se separam em ruas divergentes levando em seu interior filhos para a escola, esposas, maridos, nós mesmos. Voltamos no fim do dia, no sentido inverso à procissão matinal. Com meu novo horário, chegar à portaria significou uma surpresa : do lado de fora dos muros com cerca elétrica, vários carros, motos, bicicletas e pedestres aguardam a hora de poder entrar no condomínio. Há horário certo para isso acontecer e eles são operários das obras. São pedreiros, carpinteiros, encanadores que aguardam a saída dos moradores acontecer enquanto os ponteiros do relógio dão a autorização para entrar. No fim do dia, e muitos tijolos e telhas depois, quando voltamos para casa, não os vemos. Já foram embora, também no horário que precisam cumprir. É um ritual diário e silencioso … todos sabem o seu lugar, todos cumprem o seu papel. Para nós, moradores, há regras. Para os operários, também.
Na primeira manhã dos dias da nova rotina, veio-me à mente a música que, em anos de universidade e idealismo, parecia soar como um convite à reflexão sobre a igualdade. Interpretada por diferentes cantores, Cidadão, com letra e música de Lúcio Barbosa, era o desabafo de um operário da construção civil que, mesmo tendo convivido com o luxo das construções enquanto as executava, não as habitava, tampouco era convidado a freqüentá-las quando estavam concluídas. E perguntava aos passantes se estavam vendo aquele edifício para o qual ele apontava, dizendo que trabalhou lá !
Como sugeriu Clarice Lispector, mudei a minha rotina. E acabei encontrando aqueles que seguem o que diz a letra da canção que, mais de duas décadas depois, continua sendo interpretada pelas ruas do país.
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Phillip Toledano é um jovem fotógrafo britânico, filho de pai americano e mãe francesa, que mora e trabalha em Nova York. Aos onze anos de idade convenceu os pais a lhe darem a primeira câmera fotográfica e não parou mais de fotografar. Hoje faz trabalhos para, entre outros, o jornal The New York Times e a revista The New Yorker. Para ele, a fotografia deve ser como uma frase incompleta e deve deixar espaço para interrogações.
Já escrevi neste mesmo espaço sobre um outro fotógrafo (Em Preto e Branco, publicado em 30/12/2009, sobre o fotógrafo britânico Michael Kenna). Tenho fascínio e paixão por fotografia, apesar da falta de talento para fotografar. E este meu fascínio me impulsiona a buscar na fotografia momentos de reflexão. Admiro a capacidade de fotógrafos de colocarem num pedaço de papel impressões, sentimentos e até sensações. E Phillip Toledano me impressionou ainda mais ao lançar o livro Days With My Father que nada mais é que o site do mesmo nome, que ele havia criado sobre o seu pai, agora transformado em livro. É uma coletânea de fotos feitas por ele durante os últimos três anos da vida do pai, desde o falecimento da mãe, em setembro de 2006. Embora não fosse portador de doença degenerativa, o pai de Phillip sofria de perda da memória recente e morreu aos 99 anos de idade.
A capa do livro foi escolhida pelos visitantes do site, entre as várias fotografias lá expostas. Além da qualidade plástica do trabalho talentoso do fotógrafo, a simplicidade retratada é de uma beleza inquestionável. Textos curtos foram inseridos ao lado das fotos do livro. Ao invés de simples legendas, as palavras podem ser traduzidas como declarações de amor de um ao outro. Phillip narra momentos da vida do pai e conta coisas que ele costumava falar durante os três anos em que conviveram. E ouve do pai, coisas que ele nunca tinha dito para o filho antes … Phillip declara ao fim do livro estar feliz por não ter deixado de dizer nada do que gostaria de ter dito ao pai, antes de ele morrer !
Li o livro inúmeras vezes e vi em suas fotos retratos de momentos que quase todos nós passamos com os nossos pais. Lembrei que eles um dia também foram filhos e voltaram a sê-los na velhice, quando se tornaram dependentes pela senilidade. Incrível o poder da fotografia, que nos faz rever momentos dos quais não havíamos desfrutado completamente ou dos quais já havíamos nos esquecido.
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A revista semanal americana The New Yorker publicou no fim da década de 1990 um artigo interessante intitulado The Art of Dinning Out, ou A Arte de Jantar Fora. No texto, o autor descreve o ritual que os freqüentadores dos restaurantes finos da cidade de Nova York seguem para ir jantar. Trata-se de muito mais que fazer uma refeição. É um evento social que começa com a preparação para chegar ao local. Entre figurino e motoristas, os comensais não economizam, já que o evento serve muito mais para serem vistos do que propriamente para satisfazer uma das necessidades humanas vitais. Artistas da época, como a mais que vaidosa atriz britânica Joan Collins, circulam entre os demais clientes, na certeza de que estão sendo admirados. O menu de alguns dos charmosos restaurantes da cidade também é citado no artigo, uma vez que o autor freqüentou os lugares para poder escrever o texto.
Na semana em que se comemorou o aniversário de 35 anos da neve em Curitiba, uma feliz coincidência me deu a oportunidade de reviver aquele momento mágico da minha infância. Uma semana de férias durante o período que foi, até agora, o de dias mais frios do ano na cidade. Aproveitei a oportunidade para realizar então, por conta própria, o evento conhecido em grandes cidades do Brasil, a Restaurant Week. Durante uma semana, freqüentei diferentes restaurantes da cidade.
Foi uma semana peculiar. Acompanhada de uma amizade antiga, fui a lugares que acreditava terem mudado, outros que não conhecia. Lembrei-me do artigo da revista americana : há lugares onde as pessoas vão para serem vistas. Mas o que marcou a semana foi a identidade de cada lugar. Descobri que há um inquestionável ar europeu no restaurante onde se pode almoçar com a lareira acesa enquanto lá fora a temperatura era ainda mais baixa por causa da chuva da semana toda. Há outro charmoso restaurante com ar rústico em que o serviço é excelente e atenciosos garçons nos fazem sentir exclusivos enquanto degustamos um prato executivo. Numa noite fomos a uma pizzaria tradicional, onde converso freqüentemente com o gerente, e perguntei se o movimento havia crescido com o frio. Ao que ele respondeu que o que havia aumentado tinha sido o delivery. Na impossível missão de substituir o termo em inglês pelo nacionalmente conhecido similar em português, fiquei pensando por que as pessoas não saem de casa em uma noite fria para jantar, mas vão para o Hemisfério Norte ver a neve …
Voltei aonde não ia há tempos, ou por falta de oportunidade ou pela natural curiosidade que nos faz conhecer novos lugares. E a minha semana foi muito mais que uma experiência gastronômica e social. Foi também um exercício de memória e um reviver de momentos. Restaurantes onde paixões foram reveladas, declarações foram feiras, onde surpresas aconteceram, e restaurantes que não existem mais…
Percebi então que, mais que almoçar, jantar e serem vistas, as pessoas vão a restaurantes também pela lembrança de momentos bons.
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A força e a dinâmica do futebol, trouxe pela primeira a este continente muita boa gente. Pessoas que ignoravam e não imaginava um dia a hipótese de cá virem, estão radiantes, não só pela hospitalidade, mas, acima de tudo, pelo nível organizativo que o mesmo tem demonstrado.
Motivo de orgulho que trouxe ao país a união da população e do Continente. Aliás, o próprio continente africano vive um dos momentos mais marcantes da sua história. O Mundo hoje fala de África com respeito e admiração. O assunto incontornável é a realização, com êxito, do primeiro Mundial no continente.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está de visita à África antes de entregar o cargo a seu sucessor. A viagem, de 2 a 11 de julho, inclui sete países africanos e funcionará como coroamento da política de relações com o continente, instaurada durante seu governo.
Durante os 9 dias do périplo pela África, Lula passará por: Cabo Verde, Guiné Equatorial, Quênia, Tanzânia, Zâmbia e África do Sul.
Horário do almoço. Vi quando a esposa, uma jovem bonita de cabelos loiros, mostrou para o marido o que tinha acabado de pegar, dizendo que aquilo era lindo e dirigindo-se a ele de maneira tão carinhosa. Grávida, e com um menino pequeno dentro do carrinho, ela ia colocando as novas aquisições ao lado dele. Marido e esposa sorriam.
Depois de presenciar aquela cena, tomei meu caminho de volta. Afinal, meu horário de almoço quase inexiste fora do ambiente profissional. Foi uma exceção, já que o lado materno me fez ir até em casa verificar a temperatura de um filho febril. Enfim, tudo estava sob controle e eu voltaria para o trabalho.
Pensei no quão difícil e cansativo tinha sido meu dia, até então : madrugada no hospital, preço absurdo dos remédios que precisei comprar, ir direto para o trabalho sem ter dormido, um calor intenso de fevereiro e, dentro do carro, no horário do almoço, o que já é insuportável, torna-se quase letal ! Havia ainda a segunda parte do longo dia, problemas que viriam, contas a pagar, e pressões a receber.
A cena do casal que presenciei no horário do almoço voltava à minha mente o tempo todo. Pensei naquilo que vemos e ouvimos com freqüência, na mídia, à nossa volta, nas revistas, nas letras das canções que nos embalam … Um grande amor pode acontecer. Uma família feliz, daquelas em que todos são bonitos e passam o dia sorrindo, mesmo quando estão no supermercado vendo preços de produtos que não querem, mas que precisam comprar, pode existir. São famílias felizes ou que enfrentam o dia a dia de uma maneira mais leve que a grande maioria dos mortais, aceitando o que lhes acontece, enfrentando juntos as dificuldades, talvez reclamando menos, talvez apoiando-se mais.
Fim do dia. Problemas resolvidos, outros surgindo, trânsito, preocupações e decisões povoando a mente no início da terceira jornada. Onde estaria o casal agora ? Chegando em casa, talvez. Como ela seria ? Percebi, então, que a frase dita pela esposa ao marido surgiu por minha causa.
Naquele dia, no horário de almoço, ao sair da portaria do condomínio fechado onde moro, encontrei o casal selecionando material da lixeira para colocar no seu carrinho, onde estava o filho pequeno. Eles são catadores. Abri o porta-malas para entregar coisas que eu tinha separado e que já não me são úteis, mas seriam para aquela família. Eram várias caixas, algumas com brinquedos. E foi ao abrir uma delas que a esposa disse a frase que dá título a este texto.
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A África celebra no dia 25 de Maio 47 anos desde a criação, em Addis Abeba (Etiópia), da Organização de Unidade Africana (OUA). Para saudar a data, que se comemora este ano sob o lema “2010, ano da paz e da segurança” a coluna da África positiva da JornalismoFM decide fazer uma de análise sobre a situação no continente negro.
Não podemos compreender a África de hoje, sem voltar a década dos anos 1960. Aliás, foi no dia 25 de Maio de 1963 reuniram-se 32 Chefes de Estado africanos com ideias contrárias à subordinação a que o continente estava submetido durante séculos (colonialismo, neocolonialismo e “partilha da África”).
Nos dias de hoje parece haver uma grande interesse do mundo pela África, paralelamente, os africanos estão procurando assumir o controlo do seu destino através da promoção do mecanismo próprio da solução dos problemas do continente, particularmente das instabilidades político/militar.
Conheça a cantora Sul Africana, Mirian Makeba, uma voz legendária de África, admirada e respeitada em todo continente e uma grande ativista pelos direitos humanos e contra o apartheid em sua terra natal. Nasceu em Joanesburgo a 4 de Março de 1932. Seu momento decisivo aconteceu em 1960, quando estrelou o documentário anti-apartheid Come Back, Afrika, apresentado no Festival de Veneza daquele ano.
Em 9 de novembro de 2008, apresentou-se num concerto a favor de Roberto Saviano, em Castel Volturno (Itália). No palco, sofreu um ataque cardíaco e morreu tragicamente no hospital na madrugada do dia 10 de novembro.
Veja vídeos de músicas de Myrian Makeba aqui.
Léopold Sedar Senghor (Senegal) foi o primeiro governante africano a abdicar do poder, seguido de Julius Nyerere (Tanzânia), Ahmadou Ahidjo (Camarões), Quett Ketumile Masire (Botswana) e Nelson Mandela (África do Sul).
Qualquer uma dessas personalidades, se quisessem, poderiam continuar no poder dado o grande prestígio e desempenho nos cargos, mas entenderam por bem, abandonar o poder dando oportunidade a novos dirigentes.
São estes os únicos exemplos dignos de realce nesta conturbada e tenebrosa política africana.
Obesidade e fome são contrapontos da sociedade contemporânea que, gostaríamos, tivessem ficado no século XX. Mas nos acompanharam na entrada do novo século.
Nações ricas, com população obesa por causa da oferta de comida e também pela ingestão de alimentos errados e hábitos de vida prejudiciais. Países pobres, onde miseráveis morrem de fome. E uma grande parte da população mundial está entre os que podem comprar comida, mas não querem ficar acima do peso.
Tenho o hábito de refletir de diferentes maneiras sobre um mesmo assunto e também o de convidar à reflexão aqueles que, acredito, vêm os fatos sob apenas uma perspectiva. É um exercício interessante e enriquecedor. Há alguns dias, conversava com uma pessoa amiga sobre o livro As Mulheres Francesas Não Engordam (de Mireille Guiliano, editora Campus). O livro sustenta o fato de que os franceses, embora comam muito e tenham uma culinária riquíssima, não consomem alimentos processados, tampouco os que não têm ligação com a natureza. Os franceses bebem vinho e comem pão e queijo. Comem com prazer. Não são adeptos de dietas, nem lançaram alguma, como os americanos têm feito há anos. Finalmente, não são obcecados por atividade física em centros de ginástica (fitness centers ou academias) em ambientes fechados como os brasileiros.
A partir destas ponderações comecei a pensar sobre as minhas atitudes para ter mais saúde e perder peso. Aí entra a orientação de um primeiro profissional que pede que registremos as nossas atividades e ingestão de alimentos como em um diário. Como que em um diário, mas apenas mentalmente, comparei a minha rotina com a de uma pessoa que também mora em cidade grande, por exemplo, em Paris.
Deixando de lado os hábitos alimentares dos franceses, ampliei meu raciocínio para itens da vida de qualquer cidadão, como transporte e segurança. Tanto em Paris, como em outras grandes e médias cidades do continente europeu, o transporte público é eficiente. As pessoas utilizam os ônibus, trens, bondes e metrô porque não há espaço para tantos carros nas estreitas ruas históricas das cidades mais antigas. Por isso, pode haver congestionamentos nas áreas suburbanas, onde as famílias moram, pela manhã e no fim da tarde. Isso até deixarem os carros nos estacionamentos das estações de metrô e de trem. Então seguem a pé, descem e sobem escadas e escadas rolantes e, ao descer do transporte público, há ainda alguns quarteirões para caminhar até o trabalho. No fim do dia, tudo novamente no caminho de volta.
O curto inverno europeu também convida os moradores das grandes e pequenas cidades às caminhadas pela vizinhança após o jantar, hábito este quase em extinção em tantas outras partes do mundo, onde a prática da caminhada foi oficializada como esporte. Mas eles o fazem porque é seguro sair à noite a pé.
Eu não utilizo o transporte público na minha cidade, saindo cedo de casa direto para o carro até a porta do trabalho. Também não saio para caminhar à noite, depois do jantar, porque não é seguro.
Para perder peso, combater a obesidade e manter a forma física temos recursos : tratamentos médicos e nutricionais, atividades físicas, re-educação alimentar, mesmo quando há herança genética desfavorável. Mas é curioso concluir que o respeito por parte das instituições públicas e autoridades pode, também, contribuir para uma sociedade mais saudável.
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