A lâmpada mágica

O jornal americano The New York Post publicou em julho de 2008 a notícia do lançamento, por uma joalheria elegante da cidade de Nova York, de um ursinho de pelúcia anti-alérgica, cujos olhos eram de diamantes e que seria o presente ideal no nascimento, batizado ou aniversário de bebês. A jornalista que comentava o artigo descrevia, então, a alegria de seu bebê de 11 meses à época, em brincar e jogar potes de tupperware pelo chão da casa. Numa alusão à simplicidade dos bebês, os olhos de diamantes do ursinho pareciam não ter valor algum tanto para o seu quanto para os demais bebês ao redor do mundo.

Lembrei-me daquele artigo porque esta semana li em um site no Brasil sobre o lançamento de pijamas infantis com peças mais chiques, sob o título : “ pijamas infantis ganham até cristais como enfeite”. Segundo a reportagem, esse “novo investimento” se justifica porque pais e mães trabalham fora e chegam em casa na hora de colocar os filhos para dormir : as crianças já comeram, tomaram banho e estão vestidas para ir para a cama. Nada mais natural, portanto, que queiram ver os filhos bem vestidos!

Aos poucos, mas muito mais rapidamente do que imaginávamos, os adultos têm imposto aos pequenos as suas linhas de comportamento, principalmente no que se refere a expor, ostentar, diferenciar-se e distanciar-se. Comportamentos adultos estão cada vez mais inseridos na realidade infantil, quase sempre por exigência dos próprios pais. Seus filhos devem, desde a primeira infância, mostrar o que a família tem ou o que ela pode ter. Não são apenas bens e conquistas materiais, mas vocabulário, atitudes e decisões. Esse conjunto é que irá definir o rótulo destes novos cidadãos, como ricos, distintos, elegantes, sortudos, realizados, felizes …

Há uma semana, uma amiga comentou que, após buscar o filho pré-adolescente na escola, eles foram a uma loja de utilidades e coisas para a casa. Perambulando entre as prateleiras da seção de elétricos, o menino encontrou uma lâmpada de neon, roxa por fora e que, quando acesa, faz com que tudo o que é branco fique com aspecto fluorescente. Testaram a lâmpada, enfrentaram a fila do caixa e foram para casa. Minha amiga contou que o menino almoçou rapidamente e disse que o seu dia, até então, tinha sido mais feliz do que imaginava, por ter comprado a lâmpada. Em seguida, foi ao seu quarto para substituir a lâmpada normal pela nova. O momento mágico foi após ele fechar as cortinas – afinal não eram nem 14:00h e o dia estava ensolarado – e apertar o interruptor! O restante da tarde resumiu-se em esperarem as intermináveis horas até o escurecer, enquanto ele criava novas maneiras de se divertir, para ver o efeito daquela lâmpada. A noite foi ainda mais incrível, porque a magia surgia apenas apagando-se as luzes para ele ligar a nova lâmpada.

No início da semana, minha amiga disse que o filho havia levado a mesma lâmpada na mochila ao ir passar o domingo com o pai, para poder mostrar e se divertir.

São três momentos e situações diferentes, mas acredito que o ursinho com olhos de diamantes e os pijamas com cristais não exerceriam tamanha magia em uma criança quanto aquela simples lâmpada de neon …

(A ilustração é Bolhas de Sabão, arte de Neiva Passuello)

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One Response to “A lâmpada mágica”

  1. Tzki Mr. disse:

    O assunto da Lâmpada Mágica é de interesse geral e de grande importância para ser debatido com ênfase pela sociedade.

    Muito bem colocada a história do pijama e dos ursinhos.

    Nossa horta de crianças pode estar sendo regada com pó que pode lhes secar o coração e a mente.

    Mas, seu sou digno de sugestão, diria ao final, para concluir o pensamento:

    Cuidado para não vestir o corpo de nudez, a mente com burburinhos e a alma com insensatez.

    Parabéns à Pia Hert por suas colunas culturais ricas em informação que nos fazem refletir sobre nossa vida/ nossa sociedade.

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