Uma vez, na adolescência, li um livro que me marcaria de forma significativa a partir de então. A obra era “A Linguagem dos Pássaros”, do escritor Farid ud-Din Attar, mestre sufi nascido na Pérsia do século XII. Em linhas gerais, a obra narra a jornada de um grupo de pássaros que vai em busca de seu rei, o Simorg. Como “Parsifal” de Wolfram Von Eschenbach ou obras semelhantes do ciclo arturiano, trata-se de uma narrativa metafórica do autoconhecimento.
Em meio à teia maravilhosa de “A Linguagem dos Pássaros”, o autor incluiu uma série de pequenas histórias, aforismos e poemas interessantíssimos de fundo moral. Dentre todos um pequeno texto, em especial, se fixou em meu espírito. A tal ponto de, vez por outra, retornar à minha mente, aos meus lábios e mesmo às minhas incursões de “radiowebcolunismo”. Diz o poeta: “Se você quer despertar o leão, bata no cão”.
É possível ver no cão, como quer o antigo Islã, uma representação do que há de mais baixo, daquilo que dorme junto ao pó e que submete às paixões de seu proprietário humano. E, no leão, a encarnação da nobreza, da força e da coragem do homem transformado e soberano. Ao bater no cão que está guardado no próprio coração, portanto, o homem não está meramente negando ou destruindo um sentimento vil. Mais do que isso, está chamando o próprio espírito aos brios e, alquimicamente, convertendo toda a acomodação em força transformadora.
O sentido mais amplo do ditado, evidentemente, vai muito além de meu olhar de espectro restrito, mesmo porque as imagens são carregadas de uma série de significados percebidos apenas pelos próprios sufis ou por acadêmicos que trabalham com o tema. Não é o meu caso. Meu caso, porém, é o de alguém que foi realmente tocado por uma frase dita, há oitocentos anos, por um homem notável. Um ancestral chamado ao leão. Bom dia!