Teria.
A coisa já estava quase feita quando alguém percebeu que lá pelas páginas cento e tantas havia um trecho que descrevia – tirem as crianças da sala – sexo.
Cancele-se a compra, coloque-se essa história nos jornais e nas revistas, e mutile-se a obra. Espetaculismo possivelmente motivado pelo que aconteceu em São Paulo dias antes. Mais livros didáticos em que aparecia – tirem as crianças da sala – sexo.
Cito um trecho do texto em que conta a sua versão da história: link
Entre os danos materiais, está o dano moral do autor ao ver um trecho de seu próprio livro, duas ou três linhas, ser reproduzido nos jornais como se fosse um hai-kai, e não parte de um romance de 142 páginas, em que cada palavra se relaciona com o todo e é voz de um narrador-personagem capaz de dar significado à sua linguagem.
Escrevi sobre o tema em meu blog, explicando como o governo catarinense pensa mais em sexo que em literatura. Afinal, por se tratar de um livro, qualquer um serviria. Talvez nossos alunos nem o leiam, não é mesmo? Afinal é apenas um livro.
Mas ao perceber-se que havia sexo nele, acenderam logo o incinerador. Afinal, tratava-se de sexo.
Se quer saber, por mim tudo bem vetarem o livro antes. Nem ficaríamos sabendo e seríamos poupados de um espetáculo ridículo.
Porém a conveniência moral vem antes da ética e do cuidado com a formação literária dos estudantes catarinenses. Logo, o livro foi aprovado e vetado. Tudo na ordem errada.
No entanto, não penso que isso seja privilégio de Santa Catarina ou do Brasil.
Uma leitora bem lembrou em um comentário que aqui transcrevo:
“O cortiço” foi leitura obrigatória no 2o ano do meu Ensino Médio. Os professores até ficam felizes, porque sabem que os alunos finalmente vão ler o livro todo, afinal, ele é coalhado de sacanagens… você vê os meninos se cutucando e perguntando se os outros já chegaram na cena lésbica. É raro ver tanto entusiasmo pela literatura.
Quanto a mim, fiquei meio chocada, mas entendi a função das cenas no romance, especialmente com a explicação do professor sobre o naturalismo e os nomes das personagens. (…)
A educação sexual costuma ser ministrada na 6a série; no Ensino Médio, certamente alguma aluna já deve ter aparecido grávida; o Tezza escreve bem; então por que a hipocrisia?
Proíbam os livros mesmo, digam que é “perigoso”, que aí todo mundo vai correndo ler. É melhor acreditar que tudo isso se trata de uma estratégia inteligente pra estimular a leitura no Brasil…
A leitora está certa.
Na verdade, é difícil pensar em boa arte que não tenha sua dose de erotismo ou até mesmo pornografia. Sexo ainda que velado. Até mesmo a mais beata das pietás tem sua dose de erotismo, na verdade.
Tomara que proíbam toda a literatura. Aí os nossos adolescentes vão ficar interessadíssimos.
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[...] para a sua obra, o acompanhamento que o Paulo Ramos tem feito dos casos no Blog dos Quadrinhos, a coluna do Alessandro Martins no Jornalismo FM e o excelente post do [...]