Vivemos em um cortiço literário

O professor e escritor Cristóvão Tezza teria 130 mil exemplares de seu Aventuras Provisórias comprado pelo governo de Santa Catarina.

Teria.

A coisa já estava quase feita quando alguém percebeu que lá pelas páginas cento e tantas havia um trecho que descrevia – tirem as crianças da sala – sexo.

Cancele-se a compra, coloque-se essa história nos jornais e nas revistas, e mutile-se a obra. Espetaculismo possivelmente motivado pelo que aconteceu em São Paulo dias antes. Mais livros didáticos em que aparecia – tirem as crianças da sala – sexo.

Cito um trecho do texto em que conta a sua versão da história: link
Entre os danos materiais, está o dano moral do autor ao ver um trecho de seu próprio livro, duas ou três linhas, ser reproduzido nos jornais como se fosse um hai-kai, e não parte de um romance de 142 páginas, em que cada palavra se relaciona com o todo e é voz de um narrador-personagem capaz de dar significado à sua linguagem.
Escrevi sobre o tema em meu blog, explicando como o governo catarinense pensa mais em sexo que em literatura. Afinal, por se tratar de um livro, qualquer um serviria. Talvez nossos alunos nem o leiam, não é mesmo? Afinal é apenas um livro.

Mas ao perceber-se que havia sexo nele, acenderam logo o incinerador. Afinal, tratava-se de sexo.

Se quer saber, por mim tudo bem vetarem o livro antes. Nem ficaríamos sabendo e seríamos poupados de um espetáculo ridículo.

Porém a conveniência moral vem antes da ética e do cuidado com a formação literária dos estudantes catarinenses. Logo, o livro foi aprovado e vetado. Tudo na ordem errada.

No entanto, não penso que isso seja privilégio de Santa Catarina ou do Brasil.

Uma leitora bem lembrou em um comentário que aqui transcrevo:
“O cortiço” foi leitura obrigatória no 2o ano do meu Ensino Médio. Os professores até ficam felizes, porque sabem que os alunos finalmente vão ler o livro todo, afinal, ele é coalhado de sacanagens… você vê os meninos se cutucando e perguntando se os outros já chegaram na cena lésbica. É raro ver tanto entusiasmo pela literatura.
Quanto a mim, fiquei meio chocada, mas entendi a função das cenas no romance, especialmente com a explicação do professor sobre o naturalismo e os nomes das personagens. (…)
A educação sexual costuma ser ministrada na 6a série; no Ensino Médio, certamente alguma aluna já deve ter aparecido grávida; o Tezza escreve bem; então por que a hipocrisia?
Proíbam os livros mesmo, digam que é “perigoso”, que aí todo mundo vai correndo ler. É melhor acreditar que tudo isso se trata de uma estratégia inteligente pra estimular a leitura no Brasil…
A leitora está certa.

Na verdade, é difícil pensar em boa arte que não tenha sua dose de erotismo ou até mesmo pornografia. Sexo ainda que velado. Até mesmo a mais beata das pietás tem sua dose de erotismo, na verdade.

Tomara que proíbam toda a literatura. Aí os nossos adolescentes vão ficar interessadíssimos.

http://www.livroseafins.com
http://www.cracatoa.com.br
http://www.iniciantenabolsa.com

http://www.queroterumblog.com

http://www.eupraticoyoga.com

audio

Matérias mais comentadas

Assuntos recorrentes

água índios acidente Adicionar nova tag agricultura ambiente arte digital artes assembléia legislativa aterro da caximba beatles bicicleta bulling burocracia câmara municipal cabo verde cachorro cartão de crédito CD centro judiciário cesária évora chuva forte cibercrimes cidadania cinema comportamento comunicação congresso nacional construção civil consumo contrabando copel criança crise crise financeira Cultura cultura digital denúncia dilma direito autoral direitos humanos dnit drogas economia educação eleição emprego energia enquete entrevista esporte esporte amador estradas estupro exposição febre amarela feriado festival de curitiba futebol gay golpe greve guarda municipal homossexual hospital público icms idosos ilha do mel imposto improbidade administrativa indústria inflação informática internacional internet investigação jornalismo justiça lei lixo lula mídia música mata atlântica meio ambiente moda mon museu opinião paço municipal paraná parque de diversões passeata passe livre pedágio pedofilia personalidades petróleo polêmica polícia polícia federal política porto poty pré-sal prefeitura programação qualificação profissional receita federal religião rppns saúde salário mínimo satiagraha saudade sebrae segurança pública sexo shows teatro tecnologia The Doors trânsito turismo ufpr urbano vídeo vestibular viagens violência

One Response to “Vivemos em um cortiço literário”

  1. [...] para a sua obra, o acompanhamento que o Paulo Ramos tem feito dos casos no Blog dos Quadrinhos, a coluna do Alessandro Martins no Jornalismo FM e o excelente post do [...]

Leave a Reply

Desenvolvido em Wordpress | Desenhado por Elegant Themes | Personalizado por Jornalismo FM