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Brasil, Sarney e as moscas: da necessidade de um contraprocesso civilizatório

Na noite de ontem, por força do interesse jornalístico, fomos obrigados a assistir a uma das coisas mais chatas da história da televisão brasileira: o presidente do Senado, José Sarney, tentando salvar a cara face às milhares de acusações de corrupção que, como moscas em monte de estrume, insistem em permanecer esvoaçando em seu espaço aéreo. Sarney, na verdade, e também Renan, Requião, Lobão, Collor e até o próprio Lula, presidente operário, são o corolário de um processo civilizatório multissecular, calcado no velho modelo ibérico cartorial, patriarcal, escravocrata e mandão. Ao ver Sarney discursar, tive a nítida impressão de que, de fato, ele acredita não ter feito nada de errado, e que existe um plano em marcha para desacreditar o legislativo no Brasil. Essa percepção, evidentemente, não o exime de responsabilidade. Mais do que tudo, ela chama a atenção por caracterizar o já referido processo civilizatório, tema tão bem desenvolvido pelo sociólogo Norbert Elias. Alemães, franceses, ingleses, americanos, chineses e japoneses não têm as características que lhes dão o tom sem mais nem porque – essas idiossincrasias são fruto de muitos séculos de relações sociais e de poder. A História mostra, porém, que as distorções desses construtos, no mais das vezes, só se resolvem por meio de soluções drásticas como guerras, revoluções ou contraprocessos civilizatórios altamente planejados. A Alemanha e o Japão que emergiram da guerra, os Estados Unidos que brotaram da marcha pelos direitos civis e o Parlamentarismo Britânico são excelentes exemplos disso.

Voltando a Sarney e às moscas, chegamos à questão: como resolver, em definitivo, esse problema? Como dissolver o velho modelo e fazer brotar outro, que coloque no museu e na classe das memórias vergonhosas as práticas tão ferozmente defendidas por nossos políticos e por seus áulicos? Uma revolução sangrenta poderia ser um caminho. O problema é que, ao revolver o solo até as entranhas para assentar um novo edifício, muitas injustiças são feitas, e esse é um péssimo início de processo. O diabo, dizia Goethe, é velho. Vencer sua inteligência matreira demanda, portanto, uma inteligência ainda mais articulada, que não esteja assentada no vício, mas na virtude. Talvez o Brasil precise, de fato, de um contraprocesso civilizatório, até para não precisar de uma revolução sangrenta. Os estudos que nos permitem desvendar a complexidade do ancien régime estão disponíveis há muito tempo, feitos por pessoas como Joaquim Nabuco, Florestan Fernandes, Guerreiro Ramos e Gilberto Freyre. O negócio é tomá-los a sério. Pessoalmente, acho que o caminho começa pela educação, principalmente pela de nível básico. De resto, uma boa dose de Confucionismo – aqui, fala o Orientalista nada enrustido – não faria mal a ninguém. Bom dia!

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